Comentários recentes da liderança da Aave indicam uma possível mudança do modelo atual de tokenização de ativos do mundo real (RWA)—dominado por Treasury bills dos EUA e crédito tradicional—para uma classe mais ampla de “ativos de abundância”, incluindo armazenamento de energia solar e robótica. A projeção sugere que até USD 50 trilhões desses ativos poderiam ser tokenizados até 2050. Embora o número seja especulativo, o enquadramento importa: exige avaliar se mercados de crédito descentralizados podem sustentar classes de ativos de longa duração, amortização contínua e forte intensidade operacional, tradicionalmente financiadas via capital de infraestrutura.

Este artigo examina como essa possível evolução interage com as condições monetárias atuais, a infraestrutura de mercado, fronteiras prudenciais e riscos operacionais, com base em evidências validadas de ajustes recentes na política de mercados monetários do Reino Unido e nas posturas regulatórias emergentes sobre supervisão de DeFi.

Contexto setorial e vetores estruturais

A tokenização de RWAs alcançou aproximadamente USD 25 bilhões globalmente, concentrada em Treasury bills, crédito privado e imóveis. A mudança proposta pelo fundador da Aave—tokenizar energia solar e outras tecnologias escaláveis—sugere uma realocação de ativos escassos e de baixo rendimento para infraestrutura com perfis de risco-retorno mais variáveis.

No Reino Unido, desenvolvimentos paralelos no ambiente de liquidez fornecem contexto: o Banco da Inglaterra (BoE) recalibrou o Operational Standing Facility (OSF) para Bank Rate ±15 bps em 10 de dezembro de 2025, enquanto o uso de Short-Term Repos (STR) e Indexed Long-Term Repos (ILTR) se tornou mais difundido. Uma consulta para expandir o mercado de Treasury bills é esperada em janeiro de 2026. Esses ajustes indicam um foco renovado na gestão de liquidez colateralizada—relevante porque a adoção institucional de dívida de infraestrutura tokenizada dependerá de como esses ativos interagem com mercados de recompra e estruturas de liquidez bancária.

Impacto de mercado e dinâmica de colateral

A tokenização em larga escala de infraestrutura energética e de automação pode transformar o DeFi institucional de três maneiras:

  • Ampliar a diversidade de colateral: Fluxos de caixa longos e amortizantes diferem substancialmente da estrutura líquida e sem risco de crédito dos Treasuries tokenizados.
  • Introduzir risco mensurável de duration e de desempenho operacional nos mercados onchain.
  • Depender de profundidade de mercado secundário para alcançar a “negociação contínua” e reciclagem de capital citadas por seus defensores.

Evidências da infraestrutura DeFi mostram maturação na liquidez onchain: a Fireblocks processou mais de USD 200 bilhões em transferências de stablecoins por mês em 2025, com o volume total crescendo 300% ano a ano. O processamento de transações alcançou 100 TPS e ficou cinco vezes mais rápido em cadeias como Solana. Esses avanços sugerem que o throughput necessário para fluxos institucionais de crédito é viável, embora a liquidez para ativos de infraestrutura de vários anos permaneça estruturalmente limitada sem compromisso de formadores de mercado.

MétricaValorFonte
Volume de tokenização RWAUSD 25BRWA.xyz
Precificação do OSF do BoEBank Rate ±15 bpsBoE Minutes 2025
Crescimento de transferências de stablecoins (YoY)300%Fireblocks 2025
Total de transferências digitais asseguradasUSD 10T+Fireblocks
Cripto roubada em 2025USD 3.4BFireblocks

Regulação e requisitos de conformidade

A FCA está ampliando seu perímetro regulatório para abranger um conjunto maior de atividades cripto, incluindo arranjos DeFi. Isso se cruza com orientações emergentes de que obrigações regulatórias devem depender de haver autoridade unilateral sobre fundos de usuários ou capacidade de iniciar ou bloquear transações. Aplicar requisitos prudenciais pensados para plataformas custodiais a protocolos automatizados e não‑custodiais tem sido considerado estruturalmente incompatível.

Ativos de infraestrutura tokenizados exigem atenção adicional de conformidade:

  • AML no nível do ativo: financiamento solar ou de robótica requer validação de propriedade física, controles operacionais e contrapartes—nenhum facilmente automatizável.
  • Estruturas de reporte: a consulta do BoE sobre stablecoins sistêmicas (encerramento em 10 de fevereiro de 2026) reforça a tendência a maior transparência e exigências de testes de estresse.
  • Papel dos intermediários: se a descentralização for insuficiente para evitar controle unilateral, operadores de DeFi podem ficar sob escopo regulatório para supervisão de transações.

Assim, não há seção separada de governança, pois ela está integrada na análise regulatória acima.

Implicações para design e estruturação de produtos

Ativos de abundância tokenizados—solar, armazenamento de energia, robótica—exigem estruturas que considerem receitas de projetos, seguros, manutenção e garantias de desempenho. Pontos essenciais incluem:

  • Tokenização de fluxos de caixa: tokens podem representar obrigações senior com amortização, e não direitos perpétuos.
  • Avaliação de colateral: mark‑to‑model pode ser necessário quando mercados secundários forem rasos.
  • Canais de distribuição: pools permissionados tendem a ser preferidos por alinhamento regulatório.
  • Camadas de liquidez: liquidez sintética ou representações wrap podem ser necessárias para eficiência de liquidação intra‑protocolo.

Diagnóstico de riscos e padrões de exposição

A tokenização de infraestrutura de longo prazo amplia o conjunto de riscos além dos típicos no DeFi.

  • Risco de mercado e liquidez: tokens de infraestrutura são menos líquidos; liquidações forçadas podem acentuar perdas.
  • Risco de contraparte e crédito: falhas de parceiros operacionais em energia ou automação criam exposições de crédito multipartes.
  • Risco operacional e cibernético: em 2025, USD 3.4 bilhões foram roubados em ataques cripto, com mais de USD 2 bilhões atribuídos a atores ligados à Coreia do Norte. Escalar para tokens vinculados a infraestrutura amplia o impacto potencial.
  • Risco jurídico e regulatório: incerteza sobre direitos de infraestrutura tokenizada permanece sem resolução clara.

Considerações de implementação operacional

Trazer infraestrutura tokenizada onchain requer integração precisa entre sistemas de dados físicos, ferramentas de reporte financeiro e infraestrutura de liquidação. Tendências recentes mostram expansão de trilhos corporativos: a Fireblocks protege mais de USD 10 trilhões em transações digitais através de 120+ blockchains e oferece modelos de contas integradas, enquanto a TRES fornece reconciliação auditável para mais de 230 clientes.

A adoção institucional exigirá:

  • Oráculos confiáveis vinculados a dados verificados de medição e produção.
  • Sistemas contínuos de reconciliação para validar NAV e desempenho.
  • Instrumentos jurídicos padronizados para garantir exigibilidade das garantias.

Perspectiva futura e avaliação estratégica

A proposta de tokenizar USD 50 trilhões em ativos de abundância é útil como direção, mesmo com dimensionamento hipotético. A questão institucional imediata é se a combinação de infraestrutura de liquidação madura, uso crescente de stablecoins e evolução regulatória pode sustentar mercados de crédito lastreados em infraestrutura.

Três tendências parecem duradouras:

  • Crescimento de estruturas de crédito onchain permissionadas e lastreadas em ativos.
  • Maior clareza regulatória baseada em definições de responsabilidade orientadas por controle.
  • Integração de sistemas institucionais de dados e reconciliação com trilhos de liquidação onchain.

A viabilidade de financiamento tokenizado em larga escala para energia solar ou robótica dependerá do desenvolvimento de liquidez, padrões de divulgação e capacidade de gestão de risco operacional. A trajetória atual da infraestrutura apoia experimentação, mas o alinhamento prudencial continua sendo o limite decisivo.

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