O lançamento de cinco instrumentos xStocks na 360X, um mercado secundário regulado pela BaFin e ESMA, marca um ponto de inflexão na convergência entre ações tokenizadas e a infraestrutura tradicional de bolsas. Com quase US$ 20 bilhões em volume acumulado desde maio de 2025 e estruturas de lastro compatíveis com padrões institucionais de custódia, os xStocks passam a operar em um canal regulado atendendo clientes da Deutsche Börse. Isso fortalece a interoperabilidade entre venues centralizados e ambientes on-chain, com impactos em modelos de liquidação, formação de liquidez entre venues e supervisão regulatória.

Contexto e Antecedentes

A listagem inclui representações tokenizadas de cinco ativos subjacentes (CRCLx, GOOGLx, NVDAx, SPYx, TSLAx), cada um lastreado 1:1 por ações ou ETFs tradicionais mantidos por um custodiante licenciado sob estrutura de separação patrimonial. A integração à 360X segue a parceria anunciada em dezembro entre Kraken e Deutsche Börse Group cobrindo FX, custódia, liquidação e ativos tokenizados.

Instrumentos tokenizados vêm ganhando espaço nos mercados financeiros globais, impulsionados pelo crescimento da atividade monetária on-chain: em 2025, 1,6% do M1 em USD já está on-chain, enquanto pagamentos com stablecoins crescem 350% ano a ano. O avanço de mais de 200% CAGR em fundos de mercado monetário tokenizados reforça a demanda por exposições digitalmente nativas.

Pontos-ChaveValor
Volume total negociado de xStocks desde maio de 2025~US$ 20 bilhões
Crescimento de pagamentos com stablecoins (2025)350% YoY
Participação on-chain do M1 em USD (2025)1,6%
CAGR de MMFs tokenizados200%+

Impacto de Mercado e Dinâmica de Liquidez

A integração com a 360X amplia o acesso a ações tokenizadas em um ambiente regulado e abre caminho para consolidação de liquidez entre bolsas centralizadas, canais de custódia e protocolos DeFi. A capacidade de negociar xStocks contra stablecoins é especialmente relevante diante de sua crescente utilização transfronteiriça e reconhecimento regulatório, incluindo o regime de Hong Kong em vigor desde agosto de 2025 e o projeto de lei do Canadá exigindo reservas 1:1 e custódia qualificada.

Para participantes de mercado, a listagem reduz fragmentação ao oferecer um venue com padrões consolidados de vigilância e procedimentos operacionais previsíveis. A supervisão de BaFin e ESMA pode ampliar a participação de corretores, bancos e gestores europeus com mandatos que restringem interação com mercados cripto não regulados.

Visão Reguladora e de Conformidade

A inclusão de ações tokenizadas em infraestrutura de bolsa regulada estabelece expectativas mais claras sobre governança, processos de AML/KYC e reporte. O status regulatório da 360X garante alinhamento com monitoramento de abuso de mercado da UE, requisitos de transparência de negociação e salvaguardas de custódia. Esses controles podem facilitar maior integração dos instrumentos tokenizados em fluxos operacionais institucionais.

Dada a natureza transfronteiriça da liquidação com stablecoins, as instituições precisarão de processos que atendam a estruturas sobrepostas, como a classificação brasileira de certas operações cripto como câmbio e o tratamento de transferências internacionais com stablecoins como operações cambiais. Isso implica obrigações adicionais de reporte e controles específicos por jurisdição.

Os requisitos SPSAV do Brasil — divulgações mensais, auditorias independentes bienais e distinção entre PSAV custodiante e intermediário — ilustram o aumento da supervisão prudencial e operacional sobre ativos tokenizados. Pedidos de autorização SPSAV devem ser apresentados até fevereiro de 2026, com período de transição de nove meses. Embora não se apliquem diretamente à oferta da 360X, esses marcos indicam a direção da regulação global.

Implicações de Produto e Estruturação

O modelo xStocks oferece uma estrutura replicável para produtos de ações tokenizadas: lastro integral, custódia segregada e negociabilidade entre ambientes centralizados e descentralizados. A listagem na 360X pode incentivar gestores a explorar estruturas com segregação de custódia e garantias de resgate semelhantes, especialmente para distribuição em canais regulados na UE.

A liquidação via stablecoins introduz novas considerações para gestão de colateral, liquidez intradiária e adequação de investidores. Distribuidores de valores mobiliários tokenizados precisarão de divulgações claras sobre mecânicas de resgate, papel dos custodiantes subjacentes e dependências de emissores de stablecoins. Em portfólios multijurisdicionais, interações com limites de detenção — como os propostos pelo Banco da Inglaterra de £20.000 para indivíduos e £10 milhões para empresas — exigem atenção estrutural.

Paisagem de Riscos

Risco de mercado e liquidez: a liquidez de ações tokenizadas permanece dependente do venue, e arbitragem entre venues pode gerar descontinuidades de curto prazo até maior participação de formadores de mercado. A liquidação via stablecoins cria exposição à solvência do emissor e transparência de reservas, embora regimes como o projeto canadense de reservas 1:1 reduzam parte do risco.

Risco de contraparte e crédito: estruturas de custódia segregadas reduzem exposição a inadimplência do provedor, mas exigem supervisão contínua e verificação independente. Dependências de contrapartes aumentam quando a custódia centralizada interage com liquidação on-chain.

Risco operacional e cibernético: a interoperabilidade entre venues on-chain e tradicionais amplia a superfície operacional. Vulnerabilidades de smart contracts, falhas de gestão de chaves e erros de integração entre sistemas de negociação e camadas de liquidação blockchain permanecem riscos relevantes.

Risco legal e regulatório: variações na classificação de ativos tokenizados — como a designação brasileira de certas transações como câmbio — podem gerar inconsistências de reporte ou tratamento de capital entre jurisdições. As instituições devem monitorar mudanças no perímetro regulatório.

Considerações de Implementação Operacional

Para integrar-se à oferta da 360X, instituições precisarão aprimorar orquestração de carteiras, reconciliação e supervisão de liquidação. Rails de stablecoins exigem atualização de políticas de tesouraria e buffers de liquidez. Sistemas de vigilância de mercado precisarão integrar dados on-chain e de exchange para monitoramento abrangente.

Participantes devem alinhar controles internos com exigências globais de divulgações, auditorias e supervisão de custódia. Quando posições tokenizadas interagem com protocolos DeFi, é necessário avaliar riscos de smart contracts, listas de contrapartes permitidas e gatilhos automáticos de liquidação.

Perspectivas

A introdução de xStocks na 360X demonstra como a infraestrutura de mercado regulada começa a acomodar valores mobiliários tokenizados em escala. Com mercados tradicionais movimentando trilhões anualmente — exemplificados pelos US$ 31 bilhões em receita da divisão de Markets do JPMorgan e US$ 26 bilhões do Goldman Sachs em 2024 — há incentivo estrutural para alinhar canais de liquidez a camadas digitais de liquidação.

À medida que ativos tokenizados convergem com venues estabelecidos, a fronteira entre liquidez centralizada e descentralizada tende a se estreitar, mas a harmonização regulatória global permanece incompleta. A próxima fase deve focar padrões de interoperabilidade, mobilidade de colateral entre venues e aprimoramento de estruturas prudenciais para emissores e custodiantes.

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