O Banco Central do Brasil (BCB) está preparando um regime regulatório dedicado para prestadores de serviços de ativos virtuais B2B (PSAVs), segmento que inclui Fireblocks, BitGo, Paxos, Ripple e outros operadores de infraestrutura institucional. Isso marca uma transição da supervisão voltada ao consumidor para a supervisão de infraestrutura atacadista de ativos digitais. A iniciativa ocorre em paralelo ao aprofundamento da análise de stablecoins referenciadas em moedas estrangeiras, que o BCB cada vez mais associa a fluxos financeiros transfronteiriços. Em conjunto, essas medidas sinalizam uma mudança estrutural capaz de redefinir o acesso ao mercado, os padrões de governança e o perímetro operacional de serviços institucionais ligados a DeFi no Brasil entre 2026 e 2027.
Contexto e Vetores Regulatórios
O BCB já implementou as Resoluções 519, 520, 521, emitiu as Instruções Normativas 693, 701 e 704 e, em novembro de 2025, publicou seu primeiro marco abrangente de criptoativos, que classificou determinadas operações com cripto como operações de câmbio. A próxima fase tem como alvo PSAVs que atuam exclusivamente em capacidades B2B — provedores de liquidez, custodians, operadores de infraestrutura de carteiras embarcadas e plataformas de cripto‑como‑serviço.
Essas entidades viabilizam fluxos de liquidação multi-institucionais e suportam operações de stablecoin de alto volume. Provedores de infraestrutura como a Fireblocks processam mais de US$ 200 bilhões em atividade mensal de stablecoins (2025) e asseguram mais de US$ 10 trilhões em transações em 120–150 blockchains. Seu papel como camadas atacadistas de liquidez, custódia e orquestração introduz preocupações supervisoras normalmente ausentes em regulações focadas no varejo.
O principal desafio para o BCB é que os PSAVs operam sem contraparte central ou infraestrutura organizada de negociação. Redes bilaterais de liquidez, stacks tecnológicos compartilhados e liquidação transfronteiriça levantam questões sobre propagação de riscos e a adequação dos controles prudenciais existentes.
Impacto de Mercado e Consequências Estruturais
O regime planejado provavelmente recalibrará a dinâmica competitiva do setor de ativos digitais no Brasil:
- Maiores exigências operacionais. Expectativas de compliance envolvendo governança, documentação de fluxos internacionais e estruturas de AML/monitoramento pressionarão entidades menores. O efeito de profissionalização observado por análises jurídicas domésticas acompanha tendências globais, onde sofisticação técnica e controles auditados determinam a viabilidade de mercado.
- Consolidação de redes de liquidez. Instituições que oferecem infraestrutura multinó e de alta capacidade — como arquiteturas distribuídas com fallback automatizado — têm vantagem estrutural. Essas capacidades atendem às expectativas do BCB para ambientes atacadistas.
- Realinhamento do mercado de stablecoins. Com stablecoins tratadas como operações com potencial impacto cambial, modelos de distribuição tendem a migrar para intermediários supervisionados capazes de reportar integralmente, mapear fluxos e realizar conciliações.
O período de transição (até outubro de 2026 para entidades já operantes) mantém continuidade operacional, mas restringe expansão, evitando que linhas de negócio não avaliadas escalem antes da definição regulatória.
Considerações Regulatórias e de Supervisão
As regras do BCB devem enfatizar quatro pilares: autorização, governança, transparência de transações e supervisão de reservas de stablecoins.
Critérios de Autorização
As entidades devem comprovar atividades pré-existentes, fornecer documentação operacional completa e passar por avaliação contínua. A permissão para continuar operando será temporária até a autorização plena.
Governança e Controles
Diante do aumento global de incidentes de segurança — mais de US$ 3,4 bilhões roubados em 2025 e mais de US$ 17 bilhões desde 2020 — reguladores ampliam o foco em resiliência operacional. Provedores devem demonstrar governança madura, segregação de funções, processos de cibersegurança integrados e frameworks auditados de gestão de chaves.
Relatórios e Monitoramento de Transações
A classificação de transações com stablecoins como operações ligadas ao câmbio aciona novas obrigações de reporte. As instituições devem:
- mapear todos os fluxos, incluindo interações com contrapartes estrangeiras
- documentar movimentos internos de carteiras tratados como exposições transfronteiriças quando envolverem ativos com lastro externo
- fornecer dados estruturados em formatos integráveis ao monitoramento sistêmico do BCB
A ausência de contraparte central eleva a importância de ferramentas robustas de supervisão. O BCB tende a exigir visibilidade em tempo real ou quase real sobre ciclos de liquidação.
Requisitos de Reservas de Stablecoins
O BCB avalia critérios de qualidade de reservas para stablecoins referenciadas em moeda estrangeira, incluindo colateral permitido, limites de liquidez e padrões de transparência. As medidas acompanham debates globais sobre composição de reservas.
Implicações de Produto e Estruturação
O design de produtos institucionais deve se adaptar em custódia, liquidação e provisão de liquidez.
- Segmentação de custódia. Diferenciação clara entre ativos de clientes, fluxos omnibus e carteiras operacionais torna‑se central. Arquiteturas multinó e mecanismos de fallback sustentam os padrões de resiliência esperados.
- Distribuição de stablecoins. Provedores que distribuem ou integram stablecoins estrangeiras devem tratar emissão, resgate e transferências onchain como potencialmente relevantes ao câmbio. Políticas devem contemplar divulgação de reservas, monitoramento de fluxos e avaliação de adequação do usuário.
- Serviços de liquidez B2B. Sem contraparte central, provedores podem precisar de acordos padronizados, frameworks de margem ou protocolos de gestão bilateral de exposição.
- Soluções de carteiras embutidas. Como empresas podem criar milhares de carteiras em segundos, segmentação funcional e controles de acesso devem atender às expectativas regulatórias de identificação e rastreabilidade.
Avaliação de Riscos e Exposições Setoriais
O arcabouço emergente influenciará múltiplas categorias de risco.
Risco de Mercado e Liquidez
A crescente associação de stablecoins ao mercado de câmbio significa que descasamentos de liquidez ou falhas de resgate podem afetar fluxos domésticos de pagamentos. PSAVs com volumes elevados — mais de 300% de crescimento anual em algumas plataformas — podem enfrentar novos buffers de liquidez ou regras de reporte.
Risco de Contraparte e Crédito
Redes bilaterais de liquidação exigem que instituições avaliem a qualidade de crédito das contrapartes sem apoio de uma câmara central. Reguladores podem requerer sistemas formalizados de pontuação e monitoramento de risco.
Risco Operacional e Cibernético
Operadores de alto volume devem mitigar níveis elevados de ameaça, incluindo grupos responsáveis por parcela relevante dos ataques no setor. Falhas em demonstrar controles robustos podem afetar autorizações.
Risco Legal e Regulatória
Estruturação inadequada de fluxos de stablecoins pode resultar em classificação como intermediação cambial não autorizada. Entidades dependentes de trilhas de liquidação estrangeiras devem documentar como seus arranjos operacionais se enquadram nas exigências domésticas.
Considerações de Implementação Operacional
Participantes do mercado enfrentam desafios imediatos de implementação:
- mapeamento abrangente de todos os fluxos de stablecoins, incluindo movimentações internas
- revisão de políticas internas para incorporar classificações ligadas ao câmbio
- implantação de sistemas de conciliação capazes de gerar reportes estruturados
- avaliação de cadeias de terceirização, especialmente quando provedores externos gerenciam elementos críticos de custódia
- preparação para pedidos de autorização dentro do prazo de 270 dias
Provedores que já utilizam arquiteturas multinó ou mecanismos automatizados de fallback tendem a enfrentar menor fricção regulatória, dado o foco em resiliência.
Perspectiva Futura
A expansão regulatória em duas etapas do BCB busca integrar os PSAVs ao perímetro institucional supervisionado e tratar a relevância sistêmica das stablecoins. O resultado provável é um número menor de provedores maiores, mais capitalizados e mais controlados. Para serviços institucionais ligados a DeFi, o impacto imediato será o endurecimento de padrões operacionais e de reporte, não uma proibição. Entre 2026 e 2027, o arcabouço deve convergir o mercado brasileiro de ativos digitais às normas do setor financeiro tradicional, permitindo integração incremental de infraestrutura onchain aos mercados de capitais e pagamentos domésticos.
