Declarações recentes do presidente do Deutsche Bundesbank indicam uma mudança estratégica na posição das autoridades monetárias europeias sobre stablecoins denominadas em euro e CBDC atacadista programável. Diante do GENIUS Act dos EUA e do avanço de iniciativas de tokenização institucional, a arquitetura europeia de pagamentos e liquidação entra em uma nova fase, na qual stablecoins privados atrelados ao euro podem complementar o futuro dinheiro de banco central em registros distribuídos. Para participantes de mercado, a questão central é como esses instrumentos irão remodelar o uso de colateral, a distribuição de liquidez e os pagamentos transfronteiriços.

Contexto e Antecedentes Estratégicos

O apoio de Joachim Nagel a stablecoins em euro e à CBDC atacadista reflete preocupações europeias crescentes sobre a dependência de tokens lastreados em USD. Com regras dos EUA para stablecoins entrando plenamente em vigor em 2027 — exigindo reservas 1:1, divulgações mensais e restrição de emissão a entidades autorizadas — o mercado de stablecoins em dólar caminha para maior certeza regulatória e provável expansão. Isso amplia o risco de que tokens vinculados ao USD se tornem ativos padrão de liquidação em blockchains abertas.

Bancos europeus já respondem. O Société Générale lançou uma stablecoin bancária em euro em 2026, enquanto instituições globais como JPMorgan estenderam o JPM Coin para blockchains públicas no mesmo ano. Esses movimentos sinalizam convergência entre instrumentos bancários de dinheiro digital, interoperabilidade com registros públicos e pools de liquidez DeFi.

No Reino Unido, trabalhos paralelos sobre a libra digital avançam. O Digital Pound Lab inicia testes em fases no 3º e 4º trimestre de 2025, com consultas amplas, 50.000 respostas sobre privacidade e trabalho de design em andamento. As iniciativas demonstram a percepção comum de que a infraestrutura programável de liquidação exigirá a coexistência de instrumentos de dinheiro público e privado.

Impacto de Mercado e Competitividade

Stablecoins em euro podem reduzir riscos de fragmentação ao fornecer um ativo de liquidação em registro distribuído alinhado aos objetivos da política monetária europeia. Os principais impactos incluem:

  • Mudança nos pools de liquidez: Conforme stablecoins em USD ganham escala sob o GENIUS Act, formadores de mercado europeus podem priorizar ativos de liquidação em euro para mitigar risco cambial em títulos tokenizados e mercados de colateral intradiário.
  • Escolha de redes e interoperabilidade: Com o JPM Coin operando em blockchains públicas, outros bancos podem adotar modelos híbridos semelhantes, aumentando a demanda por trilhos padronizados de stablecoin em euro.
  • Eficiências em pagamentos transfronteiriços: Nagel destacou transferências internacionais de baixo custo, potencialmente reduzindo spreads em operações de comércio exterior de PMEs e tesourarias.

Dados de 2025 mostram forte crescimento na oferta global de stablecoins, com A7A5 adicionando cerca de US$ 90 bilhões, em comparação com US$ 49 bilhões do USDT e US$ 31 bilhões do USDC. A rápida expansão reforça preocupações europeias sobre dominância de mercado e implicações para política monetária.

Pontos-Chave de Dados
MétricaValorData
Requisito de reservas do GENIUS Act1:1, divulgações mensais2025
Licenciamento de pagamentos com stablecoin na UEAutorização PI ou EMI2025
Aumento anual da oferta A7A5~US$ 90 bi2025
Lançamento do stablecoin em euro do SocGenToken bancário em euro2026
Fase 1 do Digital Pound LabInício no 3T 20252025

Regulamentação e Conformidade

O arcabouço da UE segue o MiCA e PSD2/PSD3, exigindo que provedores de serviços com stablecoins que realizem pagamentos obtenham autorização como Instituição de Pagamento ou Instituição de Moeda Eletrônica. A autorização recente dada à OKX em Malta ilustra o padrão: suporte total a pagamentos na UE, conformidade AML/KYC e integração com cartões e débitos diretos.

Para que stablecoins em euro ganhem escala, reguladores podem exigir maior transparência de reservas e relatórios padronizados, em linha com exigências dos EUA. A consulta britânica sobre stablecoins sistêmicas (2025–2026) indica possíveis tendências: limites para títulos públicos (60%, ou 95% para classificação sistêmica inicial), tetos temporários de detenção pelo usuário e documento conjunto BoE–FCA previsto para 2026. Embora focados na libra, esses critérios podem servir de referência para supervisão prudencial na UE.

Na CBDC atacadista, Nagel enfatizou programabilidade no dinheiro de banco central. Implicações de governança incluem segregação de dados entre PIPs e ESIPs, refletindo o modelo intermediado do Reino Unido, com foco em privacidade e separação operacional.

Design de Produto e Estruturação

Arquiteturas de stablecoins em euro e CBDC atacadista influenciarão a estruturação de ativos tokenizados e fluxos de liquidação. Alguns pontos incluem:

  • Colateral: Uma stablecoin em euro com reservas transparentes pode funcionar como colateral elegível para liquidez intradiária em liquidação de títulos tokenizados, dependendo da composição das reservas.
  • Modelos de distribuição: Bancos podem emitir stablecoins próprias ou usar tokens consorciados padronizados. A exploração conjunta recente de tokens por PNC, Citi e Wells Fargo nos EUA sugere preferência por infraestruturas compartilhadas quando há clareza regulatória.
  • Interoperabilidade: Stablecoins devem funcionar em registros permissionados e públicos, afetando design de smart contracts, gestão de chaves e auditabilidade.
  • Uso varejista: A licença PI da OKX demonstra que trilhos de pagamento com stablecoin se aproximam de pagamentos com cartão. Para tokens em euro, aceitação por comerciantes e capacidade offline podem virar diferencial competitivo.

Avaliação de Riscos

Riscos de mercado e liquidez: Tokens em euro reduzem exposição cambial em cadeias europeias de liquidação, mas a profundidade de liquidez pode ser inferior à dos pools em USD. Concentração em títulos públicos pode gerar risco de taxa de juros.

Riscos de contraparte e crédito: Stablecoins emitidas por bancos podem expor usuários ao risco de crédito bancário, salvo estruturas segregadas. CBDC atacadista mitiga esse risco, mas pode não atender a todos os tipos de transação.

Risco operacional e cibernético: Interoperabilidade com blockchains públicas aumenta riscos de smart contracts e gestão de chaves. Infraestruturas POS ainda não suportam pagamentos offline em CBDC.

Risco jurídico e regulatório: Divergências entre MiCA e GENIUS Act podem dificultar emissões transfronteiriças. Exigências de vigilância e AML tendem a crescer com a adoção de stablecoins em pagamentos.

Implementação e Infraestrutura

A implantação depende da prontidão dos sistemas de pagamento. O CBDC Engagement Forum do Reino Unido identificou que terminais POS atuais não suportam transações offline em CBDC, exigindo atualizações significativas. Sistemas de transporte como o TfL oferecem analogia parcial, mas CBDC atacadista exige reconciliação determinística.

Para emissores de stablecoins na UE, obter autorização PI ou EMI é pré-requisito para atuar em fluxos regulados. Plataformas multinacionais podem precisar de governança específica por jurisdição para cumprir regras de reservas, auditoria e relatórios na UE e nos EUA.

Perspectivas

Os próximos 24–36 meses devem trazer convergência entre stablecoins em euro e iniciativas de CBDC. Três tendências se destacam:

  • Simetria regulatória: À medida que os EUA finalizam a implementação do GENIUS Act, a UE pode adotar regras similares para garantir neutralidade competitiva.
  • Integração institucional: Tesourarias e custodiante exigirão capacidade de operar com stablecoins privadas e futuras CBDCs para mobilização de colateral e liquidação automatizada.
  • Reorganização de pagamentos transfronteiriços: Stablecoins em euro podem reduzir a dependência de tokens em USD, especialmente em fluxos corporativos e emissão de títulos tokenizados denominados em euros.

A direção indicada pelo Bundesbank sugere que tokens em euro serão posicionados como componentes de um ecossistema de liquidação interoperável e supervisionado, não como instrumentos de varejo. O ritmo de avanço dependerá de coordenação regulatória entre UE, Reino Unido e EUA, além da prontidão do setor para integrar dinheiro programável em fluxos institucionais.

Share this post